A Câmara eleita nas urnas em 2026 terá 109 mulheres, uma conquista histórica para a participação feminina no debate político. Por outro lado, viu diminuir o número de deputados pretos ou pardos no Legislativo.
Os números levantam uma questão que vai além da eleição: quem terá voz nas decisões dos próximos quatro anos?
A reflexão foi tema da coluna “O Congresso não pode terceirizar a pauta da maioria negra”, publicada nesta terça-feira (6) pelo comunicador Joildo Santos, fundador do Espaço do Povo e do Grupo Cria, no UOL.
Ao cruzar dados das eleições de 2022 e 2026, o colunista mostra que o aumento da presença feminina na Câmara ocorreu de maneira desigual, embora não menos importante.
As mulheres passaram de 90 para 109 deputadas e ocuparão 21,2% das 513 cadeiras. Já o número de parlamentares autodeclarados pretos ou pardos caiu de 139 para 135, equivalente a 26,3% da Câmara.
A diferença chama atenção diante da composição da população brasileira. Segundo o Censo de 2022, pretos e pardos representam 55,5% dos brasileiros.
O jornalista, no entanto, observa que o crescimento da bancada feminina e a queda da representação preta e parda não são movimentos opostos. As mulheres negras também ganharam cadeiras; ele pontua apenas que o cruzamento dos dados mostra que diferentes grupos avançaram em ritmos distintos.
Nova Câmara amplia presença feminina, mas representação racial continua desigual
O cruzamento entre raça e gênero revela outra diferença. As mulheres negras — pretas e pardas — passaram de 31 para 34 deputadas. Entre os homens negros, o número caiu de 108 para 101.
O maior crescimento ocorreu entre as mulheres brancas, que passaram de 56 para 73 representantes. Das 19 cadeiras conquistadas a mais pela bancada feminina, 17 correspondem ao avanço desse grupo.
Dentro da bancada feminina, o crescimento se concentrou entre as mulheres brancas, que passaram de 56 para 73 cadeiras. As mulheres negras também avançaram, de 31 para 34. “O avanço é real, mas seus benefícios foram distribuídos de maneira desigual”, resume Joildo.
O resultado mostra que ampliar a presença de um grupo no Parlamento não significa necessariamente reduzir outras desigualdades na mesma velocidade.
Representação não encerra a cobrança
A composição da Câmara mostra quem conquistou uma cadeira, mas não o que cada parlamentar fará com ela. “O perfil dos eleitos é uma parte da discussão. A outra é saber o que cada mandato fará”, chama a atenção o jornalista.
Um levantamento do Instituto Data Raça citado pelo colunista ajuda a entender essa diferença. O estudo analisou 922 deputados que exerceram mandato nas legislaturas iniciadas em 2019 ou 2023 e identificou 239 proposições relacionadas à população negra e à igualdade racial.
Entre os 134 integrantes considerados como parte da Bancada Negra no levantamento, 70,9% haviam apresentado ou assinado ao menos uma dessas proposições. Entre os demais parlamentares, o percentual era de 42,1%.
A atuação mais frequente da bancada nessa agenda, porém, não significa que ela consiga fazer as propostas avançarem sozinha.
A PEC 27/2024, que propõe um Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial, mostra esse limite. O texto aprovado na comissão especial prevê R$ 1 bilhão por ano durante 20 anos.
Uma PEC precisa de pelo menos 308 votos favoráveis, em dois turnos, para ser aprovada na Câmara. Mesmo que todos os 134 integrantes considerados no estudo votassem juntos, ainda seria necessário conquistar apoio fora da bancada.
É daí que surge uma das principais provocações da coluna: a responsabilidade pela igualdade racial não pode ser transferida apenas aos parlamentares negros.
A pauta racial também passa pelo cotidiano da periferia
Essa cobrança não precisa se limitar aos projetos que tratam diretamente de racismo ou igualdade racial.
Decisões sobre transporte, moradia, saneamento, emprego, educação, saúde e crédito também podem aumentar ou reduzir desigualdades.
Para quem vive nas periferias, uma forma prática de avaliar essas políticas é perguntar se elas ampliam o acesso: o transporte aproxima o trabalhador do emprego? O programa habitacional chega às famílias de menor renda? O crédito alcança quem não possui patrimônio para oferecer como garantia?
Joildo resume essa fiscalização em outra pergunta: “quem está sendo atendido e quem continua de fora?”
Depois do voto, acompanhe o mandato
A eleição de 2026 oferece uma fotografia de quem ocupará as 513 cadeiras da Câmara. Os próximos quatro anos mostrarão como esse poder será utilizado.
O eleitor pode acompanhar como seu deputado vota, quais projetos apresenta, de quais comissões participa e o que aconteceu com as promessas feitas durante a campanha. Também pode cobrar partidos e lideranças responsáveis por negociar quais matérias avançam no Congresso.
Para uma população majoritariamente preta e parda, a defesa da igualdade racial não pode ser responsabilidade apenas dos parlamentares negros.
E uma atitude simples pode ajudar nessa fiscalização: guardar o nome do deputado escolhido na urna e continuar acompanhando o que ele faz depois que a campanha termina.
“Agora vale guardar o nome do deputado em quem você votou e voltar às suas promessas. Quando houver uma votação importante, perguntar como ele se posicionou. Quando uma proposta ficar parada, cobrar o motivo e levar a pergunta ao partido”, finaliza Santos.
- Joildo Santos é jornalista, comunicador, fundador do Espaço do Povo e do Grupo Cria. Especialista em inteligência territorial, comunicação, consumo e desenvolvimento das periferias brasileiras, é também colunista do UOL, onde aborda política, desigualdade, comportamento e temas que atravessam o cotidiano das periferias.