No 9º ano da Escola Gracinha, em São Paulo, 60 estudantes viraram empreendedores sociais: pesquisaram dados, montaram o orçamento do primeiro ano, construíram sites funcionais e apresentaram os projetos para uma banca de “investidores”, tudo em Língua Inglesa
A aula que começa com um problema, não com uma matéria
Imagine uma sala de 9º ano em que ninguém pergunta “isso vai cair na prova?”. A pergunta é outra: que problema social você quer resolver?
Foi assim na Escola Gracinha, na zona sul de São Paulo. Cerca de 60 estudantes, divididos em 15 grupos, receberam uma missão que mistura o que normalmente fica separado em gavetas diferentes: investigação, tecnologia, matemática financeira e inglês. O produto final não é uma redação corrigida com caneta vermelha, é um aplicativo ou uma plataforma digital que poderia, de verdade, existir.
No fim do processo, os grupos subiram ao palco para uma simulação inspirada no programa “Shark Tank”: apresentaram as propostas e tentaram convencer uma banca a “investir”. Quatro funcionários da própria escola interpretaram o papel de investidores.
Quem conduziu a atividade foi o professor de Língua Inglesa Pedro Henrique Miranda, formado em Letras pela USP e com pós-graduação em Gestão Educacional. Para ele, o aprendizado vai muito além de criar um produto bonito. “Não basta ter uma boa ideia. Eles precisam entender o problema, saber explicar a solução e convencer alguém de que ela pode funcionar”, resume.
O caminho percorrido: da estatística ao pitch
O projeto não começou pela tecnologia, e sim pela pesquisa. Cada equipe escolheu um tema social, identificou quem eram as pessoas afetadas e foi atrás de estatísticas reais que comprovassem a dimensão do problema, porque opinião, aqui, não bastava.
Só depois vieram as decisões de produto: como a plataforma funcionaria, para quem ela fala, o que ela tem de diferente e, principalmente, como medir o impacto social gerado.
A parte que costuma assustar adolescente veio na sequência: dinheiro. Os grupos estimaram receitas e custos, projetaram os resultados do primeiro ano e definiram quanto pediriam aos investidores, e como cada centavo seria usado. Ou seja: a ideia precisava caber no orçamento.
“Os grupos também precisaram pensar na viabilidade financeira das propostas. Fizeram estimativas de receitas e custos, projetaram os resultados para o primeiro ano e definiram quanto pediriam aos investidores e como utilizariam o recurso”, conta o professor.
A atividade está ligada ao componente de Língua Inglesa do 9º ano e aos princípios da educação em direitos humanos. Na prática, isso significou produzir em inglês: documentos de planejamento, materiais de apoio e as apresentações finais. O idioma deixou de ser conteúdo decorado e virou ferramenta de trabalho, usada para pesquisar, argumentar e persuadir. Nas discussões do dia a dia, o português continuou liberado, respeitando os diferentes níveis de proficiência da turma.
“O objetivo é que eles consigam se apropriar desses vários dados para persuadir os sharks. É o desenvolvimento de speaking skills, especialmente de persuasão, a partir de uma área de interesse próprio”, explica Pedro Henrique. Para chegar lá, os alunos tiveram de ler e entender informações em inglês, separar o que era relevante e organizar tudo em um argumento que se sustenta de pé.
Do papel para a tela: sites que realmente funcionam
A novidade desta edição foi transformar as ideias em produto digital de verdade. Com a ferramenta Lovable, os grupos construíram sites funcionais, trabalhando identidade visual, interface e recursos.
Entre os temas escolhidos, aparecem questões que raramente entram no currículo tradicional: a falta de educação sexual nas escolas brasileiras e a inclusão de pessoas com deficiência intelectual.
A estudante Sofia Leão, do 9º ano, ajudou a criar uma plataforma para adolescentes que se sentem sozinhos e não encontram apoio em casa. Para ela, o mais difícil foi antecipar as perguntas da banca. “São várias coisas com que você precisa se preocupar, porque é um aplicativo que vai existir de verdade. Todas as nossas fontes foram em inglês e escrevemos todo o projeto em inglês, então já estamos familiarizados com as palavras”, comenta.
Já o grupo de Miguel Souza optou por desenvolver um app voltado a pessoas com deficiência intelectual. “Entre os desafios está a criatividade, porque é necessário pensar no que você vai querer defender, o objetivo do seu aplicativo e como ele vai ajudar as pessoas”, diz.
O que essa experiência ensina (e o que dá para levar para outras escolas)
Projetos assim funcionam como um ensaio do mundo real dentro da escola. O estudante não decora uma resposta: ele escolhe um problema, sustenta a escolha com dados, calcula se a solução é possível, constrói algo concreto e defende a ideia na frente dos outros — habilidades que servem tanto para o vestibular quanto para o primeiro emprego.
“Na etapa final, a dinâmica encerrou um processo que combinou pesquisa, tecnologia, planejamento financeiro, trabalho em equipe e comunicação em inglês, levando os estudantes a transformar uma ideia em uma proposta fundamentada e capaz de ser defendida”, finaliza o professor.