Trabalho de mulher é o que ela quiser

 Trabalho de mulher é o que ela quiser

Dayana Gouveia – Crédito: Léu Britto

No mês da mulher, você conhece a história da Daiana, uma serralheira que aprendeu o ofício com o pai e se apaixonou pela profissão

Existem profissões que de maneira preconceituosa são consideradas “trabalho de homem”. Talvez não pensemos em mulheres trabalhando em oficinas de serralheria, por exemplo. As ferramentas pesadas, faíscas de solda e barras de aço, fazem parte de um ambiente ainda dominado por homens. 

Dayana Gouveia, aos 18 anos, ousou mudar esse cenário. Foi atraída pela oficina da serralheria da família e seguiu os passos do avô, pai e do irmão mais velho. Começou ajudando na oficina em dias cheios de trabalho, e pegou gosto pela profissão que virou sua paixão. 

“O meu pai e meu avô já trabalhavam com portas de aço e portões, e abriram uma oficina aqui na garagem de casa. Então meu pai me ensinou o serviço”, conta Dayana. “Eu ia com ele fazer orçamentos, vi ele trabalhando e aprendi o trabalho. Então quando estavam na correria, me deixavam na oficina eu “batia mola e fazia fita”, completa.

Apesar do gosto pela profissão, Dayana sofreu resistência por parte da família, já que seus avós não viam com bons olhos a neta trabalhando como serralheira, porém contava com o apoio do seu falecido pai, Cláudio da Silva Alves, de acordo com ela, seu maior incentivador: “Meus avós não gostavam muito não. Já meu pai dizia que tinha que ser assim mesmo, tem que trabalhar, não importa do que seja. Meu pai gostava”, lembra.

Por ser uma profissão dominada por homens, Dayana enfrentou  diversas situações de machismo por parte dos clientes, que não acreditavam na qualidade do serviço prestado por uma mulher. 

“Aqui onde eu moro, tem eu e outra mulher, que é de outra serralheria. As pessoas comentam, os clientes falam, poxa trouxe uma mulher. Daí eu começo a fazer as coisas e eles mudam de opinião. Mas, a única pessoa que tentou me impedir de trabalhar foi meu avô. É triste, a pessoa não poder trabalhar com o que ela gosta. Eu aprendi essa profissão e as pessoas criticam. Mas triste a gente fica”, desabafa.

Atualmente, Dayana enfrenta dificuldades para encontrar trabalho na serralheria, os clientes diminuíram e, por isso, ela precisa conciliar o trabalho na oficina com outros trabalhos.

“Não está tendo serviço, realmente tá tudo parado, se dá um serviço uma vez por mês é muito. Além de fazer bicos [como serralheira], eu trabalho também como cuidadora de idosos e segurança”, disse.

Daiana superou a resistência da família, a desconfiança dos clientes e comentários machistas e seguiu na profissão que ama. É um laço de amor que mantém com seu pai, a pessoa que lhe motivou a ser serralheira.

“Quando tem esse serviço para fazer, eu gosto muito, porque me lembro do pai, e por mais que meu avô me xingava, brigava comigo, eu lembro do meu avô. Porque foram eles que me ensinaram”, finaliza.

A oficina da “Central das Portas”, está localizada no Jardim Herculano, extremo sul da cidade de São Paulo. Possui 60 anos de tradição, o trabalho que começou com o avô, passou pelo pai, agora cabe a Dayana manter o legado da serralheria. 

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Repórter do Espaço do Povo, é cria do Jardim Ângela, formado em jornalismo e tem vivência em redação e assessoria de imprensa.

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