Mulheres ainda são minoria em cargos de chefia

Levantamento do Global Gender Gap Report aponta, ainda, que diferença salarial levaria 267 anos para ser equiparada ao dos homens

Por Keli Gois 

A inserção da mulher no mercado de trabalho ainda é um problema no Brasil e esse cenário é ainda mais injusto quando o valor pago pela mesma função, desempenhada por homens e mulheres, é diferente. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) revela que as mulheres ganham até 23% menos que os homens. Outro dado chocante é o tempo que elas levarão para conseguir a equiparação salarial com os homens, que segundo o Global Gender Gap Report de 2021, é de 267 anos, atuando nas mesmas funções e tarefas. 

 

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2019, a população brasileira é composta por 48,2% de homens e 51,8% de mulheres e, diante de dados como esses, uma conta não fecha: se existem mais mulheres que homens, por que elas ainda são minoria no mercado de trabalho? 

 

São reflexões como essa que Liliane Rocha, CEO e fundadora da Gestão Kairós – consultoria de sustentabilidade e diversidade, leva às empresas para promover a inclusão de mulheres, negros e pessoas trans no mercado de trabalho. “A partir dessa geração de conhecimento e entendimento — já que muitos dizem não se dar conta de que há esse destoamento tão grande entre a sociedade brasileira e o quadro funcional de suas empresas — as pessoas entendem essa necessidade, e podemos falar da inserção e promoção de mulheres”, explica Liliane.

 

A partir do entendimento dessa distância que há entre homens e mulheres no quadro funcional na liderança e nos salários, a empresa, a sociedade ou o poder público, podem trabalhar ações afirmativas focadas na redução dessa desigualdade. É possível, segundo ela, gerar programas ou iniciativas nas quais haja esse comprometimento na empresa. “Não se faz um país mais justo só com a metade da sociedade. Nós só construímos um país potente, desenvolvido e competitivo, trazendo toda a sociedade brasileira. Nós estamos falando de igualdade, equilíbrio e equidade. Isso é fundamental”, finaliza. 

 

Para amplificar as vozes das mulheres na busca por autonomia econômico-financeira, a Rede Mulher Empreendedora (RME), primeira rede de apoio a empreendedoras do Brasil, tem buscado fomentar o empreendedorismo, a empregabilidade e a inserção de mais mulheres na carreira de tecnologia. A rede oferece diversos programas para apoiar aquelas que estão em busca do emprego formal por meio da capacitação, simulações e acesso a plataformas com oportunidades de emprego. “Acreditamos que uma mulher com autonomia econômica, dona do seu dinheiro, da sua vida e de suas decisões, gera ainda um impacto social na família, na educação dos filhos e na comunidade onde vive. ”, afirma Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora. 

 

Segundo Ana, mudar este panorama de desigualdade de gênero é um trabalho árduo e de longo prazo. “Precisamos, antes de tudo, entender as desigualdades históricas e construir uma jornada social mais justa e mais inclusiva, que não trate a maioria da população como se fosse um ser humano de segunda classe”, explica. 

 

Dados do Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA) 2015, revelam que 63% dos domicílios abaixo da linha de pobreza são chefiados por mulheres, que representam a faixa mais baixa de renda. A pandemia trouxe novos agravantes a este cenário da pobreza dos lares comandados por elas. Em 2021, a taxa de desemprego brasileira atingiu o recorde de 14,7% (14,8 milhões de pessoas), de acordo com o IBGE. Comparada entre homens e mulheres, a taxa de desemprego feminino (17,9%) foi maior que a masculina (12,2%). Ou seja, as mulheres que já representam boa parte do sustento das famílias brasileiras, são as mais pobres e ainda têm de enfrentar um cenário de maior desemprego.

 

Rejane Santos, CEO do Emprega Comunidades, conhecido como LinkedIn da Favela, vem trabalhando para promover a inclusão do público feminino no mercado de trabalho, a começar por sua própria empresa: dos seus 17 funcionários, 16 são mulheres. “As empresas têm uma responsabilidade não só financeira, mas também social com o país. O sexo e a maternidade não podem ser um indicativo negativo na empregabilidade. ”

 

Segundo Rejane, além de capacitar essas mulheres e conectá-las com as empresas, é necessário trabalhar também o empoderamento, para elas terem um diferencial ao entrar no mercado de trabalho. “O que nós temos feito é a conexão com as empresas para mostrar todo o processo de formação e preparo das candidatas para as vagas para que as empresas entendam o potencial de crescimento dessas mulheres. Nós trabalhamos também a questão de empoderamento, do compromisso e da responsabilidade para que elas tenham um diferencial no mercado de trabalho. ”, finaliza.

 

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