Cultura

De vendedor de vassouras a escritor: Ferréz revisita trajetória em novo livro

Em “No corre”, autor do Capão Redondo relembra experiências de trabalho, literatura e empreendedorismo e questiona as fórmulas prontas de sucesso.

O escritor Ferréz, criado no Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo, lançou “No corre”, seu primeiro livro de não ficção, em que compartilha experiências sobre empreendedorismo, literatura e transformação social nas periferias.

Lançada em 5 de outubro pela editora Todavia, a obra reúne memórias pessoais, experiências profissionais e reflexões sobre os desafios de criar e manter negócios a partir de territórios periféricos. Com 136 páginas, o livro também aborda a importância da cultura, da geração de renda e do desenvolvimento comunitário.

Conhecido por obras como Capão Pecado, Manual prático do ódio e Ninguém é inocente em São Paulo, Ferréz apresenta uma perspectiva sobre o empreendedorismo construída a partir de sua própria trajetória, distante das fórmulas prontas de sucesso.

Do trabalho informal à literatura

Antes de conquistar reconhecimento como um dos principais nomes da literatura marginal brasileira, Ferréz passou por diferentes ocupações. Limpou garrafas, trabalhou em padaria, foi chapeiro, ajudante de pedreiro e vendedor de vassouras.

Durante esse período, conciliava o trabalho com a escrita, atividade que começou ainda na adolescência e que posteriormente se transformaria em uma carreira literária.

Ao longo dos anos, percebeu que publicar livros não era suficiente. Era necessário ampliar o acesso à leitura, criar oportunidades para outros profissionais e desenvolver iniciativas capazes de sustentar a produção cultural independente.

Essa experiência deu origem a projetos que ultrapassaram o universo literário, incluindo marcas de roupas, editoras, organizações sociais e empresas ligadas à economia criativa.

Empreendedorismo a partir da periferia

Em “No corre”, Ferréz propõe uma reflexão sobre o significado de empreender em um contexto marcado por desigualdades sociais e econômicas.

Em vez de apresentar o empreendedorismo como resultado exclusivo do esforço individual, o escritor discute os obstáculos enfrentados por quem precisa construir oportunidades em ambientes com acesso limitado a recursos e investimentos.

O livro também questiona discursos que oferecem soluções simplificadas para alcançar o sucesso profissional.

Em um dos trechos da obra, Ferréz explica por que decidiu abordar o assunto:

“Resolvi escrever este texto porque comecei a ver que abordar o que é empreendedorismo ficou até feio. Usaram a palavra de tantas formas erradas que estragaram o seu significado, e ‘empreendedorismo’ virou demérito.”

Para o autor, empreender envolve transformar ideias em iniciativas concretas, capazes de gerar resultados e contribuir para a comunidade.

A proposta também passa pela valorização do conhecimento adquirido na prática e pela troca de experiências entre pessoas que enfrentam desafios semelhantes.

Capão Redondo como território de criação e oportunidades

A relação com o Capão Redondo ocupa um lugar central na trajetória apresentada no livro.

Foi na periferia da Zona Sul de São Paulo que Ferréz desenvolveu parte importante de seus projetos culturais e empresariais, incluindo a 1Dasul, marca criada em 1999 e associada à identidade e à produção cultural periférica.

Além da marca de roupas, o escritor participou da criação de iniciativas como o Selo Povo, a ONG Interferência, a Comix Zone e a Porcovelha.

Esses projetos representam diferentes caminhos encontrados pelo autor para ampliar a circulação de produtos culturais, desenvolver negócios e fortalecer iniciativas comunitárias.

Na obra, o Capão Redondo não aparece apenas como cenário de dificuldades, mas como um território de produção de conhecimento, criatividade, cooperação e oportunidades econômicas.

Ferréz também relata experiências relacionadas à formação de novos profissionais, à criação de editoras e ao desenvolvimento de iniciativas com impacto social.

Crescer sem abandonar as próprias origens

Outro tema abordado em “No corre” é a relação entre crescimento profissional, autonomia financeira e compromisso com a comunidade.

Ferréz discute as contradições enfrentadas por quem utiliza ferramentas do mercado para conquistar independência, mas busca preservar valores ligados à cooperação e à responsabilidade social.

Entre as questões levantadas estão os desafios de administrar negócios, estabelecer relações de trabalho mais justas e evitar que o crescimento econômico reproduza desigualdades.

O escritor também compartilha experiências que não deram certo, decisões financeiras e aprendizados acumulados durante mais de duas décadas de atuação cultural e empresarial.

Em outro trecho, destaca a importância de compartilhar conhecimento:

“Quando você ensina, reforça seu conhecimento e aprende em dobro.”

A reflexão acompanha a proposta central da obra: apresentar o empreendedorismo não apenas como uma atividade econômica, mas também como uma possibilidade de construir iniciativas coletivas e ampliar oportunidades.

Um livro sobre trabalho, cultura e legado

A ideia de escrever “No corre” surgiu das perguntas que Ferréz passou a receber durante palestras, feiras literárias e encontros com jovens interessados em conhecer sua trajetória.

Muitos queriam entender como ele conseguiu construir uma carreira na literatura e, ao mesmo tempo, desenvolver negócios e projetos sociais.

Em vez de oferecer um manual com etapas para alcançar o sucesso, o escritor decidiu reunir experiências reais, incluindo dificuldades, escolhas, erros e aprendizados.

A obra também aborda questões relacionadas ao envelhecimento, à continuidade dos projetos e ao legado que cada iniciativa pode deixar.

O lançamento recebeu comentários de nomes ligados ao empreendedorismo brasileiro, como Luiza Helena Trajano e Caito Maia.

Para Luiza Helena Trajano, “Ferréz mostra que empreender é transformar talento, trabalho e propósito em oportunidade”.

Quem é Ferréz?

Nascido e criado no Capão Redondo, Ferréz é escritor, roteirista e empreendedor cultural. Tornou-se um dos principais representantes da literatura marginal brasileira, movimento que ampliou a presença de autores das periferias no cenário literário nacional.

Entre seus livros mais conhecidos estão Capão Pecado, Manual prático do ódio e Ninguém é inocente em São Paulo.

Além da literatura, desenvolveu projetos editoriais, marcas e iniciativas sociais voltadas à valorização da cultura periférica e à criação de oportunidades.

Com “No corre”, o escritor amplia sua produção para a não ficção autobiográfica, compartilhando experiências acumuladas ao longo de sua trajetória.

Onde encontrar o livro “No corre”

Publicado pela editora Todavia, “No corre: A história de um empreendedor da periferia” foi lançado em versões impressa e digital.

Ficha técnica

  • Título: No corre: A história de um empreendedor da periferia
  • Autor: Ferréz
  • Editora: Todavia
  • Lançamento: 5 de outubro de 2026
  • Gênero: Não ficção brasileira
  • Categoria: Autobiografia
  • Páginas: 136
  • Preço do livro impresso: R$ 69,90
  • Preço do e-book: R$ 49,90
  • Capa: Oga Mendonça
  • ISBN: 978-65-5692-990-3

Andre Nicolau
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Andre Nicolau

Jornalista, repórter, redator e produtor de conteúdo, formado em Jornalismo pela Universidade Anhembi Morumbi. Com experiência em veículos como CNN Brasil, Catraca Livre e UOL, atua na produção de reportagens, entrevistas e conteúdos para diferentes plataformas, abordando temas como educação, cultura, política, tecnologia, saúde, cidadania e questões sociais. Também possui experiência em revisão editorial, produção audiovisual, cobertura de eventos e eleições, técnicas de SEO e desenvolvimento de projetos de comunicação.

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