Uma visão sobre a economia das favelas brasileiras

Por Gideão Idelfonso

 

Suponha que hoje é sábado. Um jovem pensa que é um bom dia para ir comer um saboroso pastel e um caldo de cana na feira. No meio do caminho, ele decide comprar um maço de cigarro e chama seu amigo para uma breve sessão de fumo. O jovem afetuoso resolve convidar seu amigo, após a sessão, para ir à feira e saboreiam um belo pastel de camarão e caldo de cana. Souberam por um terceiro amigo que estava rolando um clássico no campo de várzea da comunidade, clima festivo e convidativo para beber uma gelada, próximo ao campo, no bar do chico compram o desejado e se deleitam com a grande partida. 

 

A história acima ilustra de forma simples o consumo na própria favela, quando for maior o oferecimento do que a procura desses produtos citados, os preços caem, e quando a procura por eles for maior que a oferta, os preços aumentam. Se as pessoas param de consumir, essa lei não fecha. A oferta tem a intenção de suprir a demanda, pois as pessoas que desejam um produto poderão comprar e quem pode oferecer um produto no melhor custo benefício tende a lucrar. 

 

Por outro lado, a pandemia evidenciou que a mão invisível do mercado nas favelas brasileiras não consegue por si só colocar comida na mesa daqueles que realmente necessitam. Apesar de o cenário pandêmico ter atingido todas as classes, as condições sociais além da desconsideração dos governantes, colocaram uma parcela dos moradores de favelas em uma situação de extrema incerteza. Os mais de 7 bilhões de pessoas no mundo possuem algo em conjunto, mas incomum em comparação entre eles: seus desejos e necessidades. Os recursos para satisfazê-los se não escassos andam em processo de extinção e a direção desses recursos são incertos e por vezes insuficientes.   

 

Os jovens independentes e as Organizações da Sociedade Civis e empresas criativas disruptivas de cunho social dentro desses territórios tem esse caráter, percebendo a deficiência do sistema como um todo, buscam ser os próprios agentes de transformação, em uma rede coletiva, em que somente os humanos são capazes de colaborar em número e com diferentes habilidades. Ao passo que podemos criar um novo mundo aqui na terra e viver nela para sempre, desde que consigamos superar algumas dificuldades técnicas, precisamos criar mais valor para a favela e incluir seus moradores como um todo para ter o acesso aos benefícios do mundo e progressão de vida.

 

Na favela, esse sistema econômico está interligado e conectado com tudo, nas relações diretas, indiretas, afetivas, e despretensiosas. A favela pode ser, sim, uma mina de dinheiro, mas também ainda é de mazelas.



Gideão Idelfonso

Cria de Paraisópolis, bacharel em Lazer e Turismo pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Pesquisador com foco na periferia e sua dialética com o Lazer e Turismo. Teve contato com projetos de impacto social em Paraisópolis e em áreas da Zona Leste.