Rocinha: A borboleta floresceu e ganhou uma rainha

Foto Charlie Gomes

Princesinha da Sapucaí, música de samba enredo para o ano de 1992, descreve bem esse retrato de discriminação perante uma favela. O G.R.E.S Acadêmicos da Rocinha, abreviação de Grêmio Recreativo Escola de Samba. Se mantém firme na sua proposta de início. Mostrar o brilho do favelado quando se une mediante tanto problema social. Conhecida apenas por Acadêmicos da Rocinha, uma escola de samba que fica situada no bairro de São Conrado, próximo da favela Rocinha. Nesse ano de 2022, completa 34 anos de muito samba.

A Multidão ficou eufórica, não perdeu nenhuma percussão e passinho.

Para entender essa história de luta e resistência, precisamos retornar ao passado de sua origem. Sua bandeira é o símbolo de uma borboleta nas cores, azul, verde e branco. Fundada em 1988, nasceu da união de três blocos carnavalescos da própria favela, Império da Gávea, Sangue Jovem e Unidos da Rocinha

No dia 13 de Abril, aconteceu na quadra da Escola de Samba, um ensaio show e a coroação da rainha de bateria, Tatiana Rosa. Além de uma verdadeira festa em comemoração ao aniversário da escola que completou ano no dia 31 de março. E desfilou no dia 30 de abril na Estrada Intendente Magalhães no bairro de Oswaldo Cruz. O posto de rainha de bateria ficou desocupado durante seis anos, entre as rainhas que foram coroadas, a atriz Bianca Rinaldi, passou pela escola como rainha de bateria. Tati Rosa, como é conhecida nas redes sociais, é cria da Rocinha e foi passista da escola de samba. Sua trajetória na agremiação começou quando criança, onde desfilou na escola mirim Borboletinha Encantada.

Diretor Mariano, curtiu o dia na escola. Sem perder o foco no trabalho. Foto Charlie Gomes

“E nós tivemos a felicidade de no meio dessa confusão toda, extrair um diamante para nossa escola que é justamente a nossa rainha de bateria que é uma menina oriunda da favela, vindo da ala de passistas e agora vem ser a rainha de bateria da nossa escola, então obrigado pandemia, por nos ter dado esse tempo e ver essa joia rara que a gente conseguiu trazer para nós, no meio de tudo que não teve de coisa boa, conseguimos extrair uma coisa boa” – Jorge Mariano, diretor da G.R.E.S Acadêmicos da Rocinha 

O enredo da escola se chama “Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo sim senhor”: carnaval e samba a mais bela expressão cultural de uma raça. A Música se chama “A Voz do Morro” do cantor Zé Keti que faleceu em 1999. Uma bela escolha na canção, pois fala do nascimento do samba na favela, raízes e resistência de um povo que é voz e porta-voz.

A quadra ficou pequena com tanto carinho e detalhes em organização, o bolo conteve o samba enredo escrito.

Devido o isolamento social da pandemia de COVID-19, o carnaval do Rio de Janeiro foi adiado por medidas de prevenção em combate ao vírus. Ao perguntar da expectativa da escola, o diretor Jorge Mariano responde:

“Cara, eu vou falar não como morador, mas como uma pessoa que gosta do carnaval e, é apaixonado pela festa e que está dois anos sem que isso aconteça, entendeu? Então a gente está sedento por isso. Tá querendo muito, poder fazer isso, poder desfilar. Porque todos nós que somos do mundo do samba, carnaval, nunca passamos por esse tipo de situação. E do nada nós virmos nossa vida trancada dentro de casa e esse carnaval não é só festa. É também de pessoas sobreviverem disso. Tem muita gente que provém suas famílias por conta do carnaval e de uma certa forma, isso deixou de existir. E ficou todo mundo sem saber para que lado ir, o que fazer. Então quando chegar agora, depois de dois adiamentos de carnaval, e todo mundo conseguir passar pela avenida, independentemente de qual avenida seja. Acho que para todo mundo vai ser um campeonato, dependente do que vai acontecer, quando abrir um envelope e se essa escola não for campeã. Para quem gosta do carnaval já foi um campeonato, nós vencemos, chegamos lá. Porque teve muito nossos que ficaram no caminho.”  – Jorge Mariano, diretor da G.R.E.S Acadêmicos da Rocinha

Como correspondente do jornal, Espaço do Povo, tive o privilégio de assistir o ensaio no dia da coroação. E garanto que estava em ritmo de favela,  que contagiou o folião.

Charlie Gomes

Cria da Favela da Rocinha, é locutor e estudante de jornalismo. Atua em diversos projetos sociais na comunidade e é proprietário do jornal comunitário @rocinhacomunic.