A pandemia – Na tragédia pensei sobre a felicidade

Por Gideão Idelfonso

No auge da pandemia da covid-19 lembro de uma noite que ao sair na sacada da minha casa, olho pra rua e vejo tudo, ninguém me ver. Na verdade, vejo tudo e não vejo nada. Um dia atípico, lua cheia na favela, calma, silenciosa, em dias normais pensaríamos logo que algo estaria acontecendo. Era difícil naquele momento entender aquela quarentena, mas nunca estive preso, ao menos não na minha própria mente. Naquele instante me questionei: o que seria felicidade naquele caos todo?  

 

Ao longo desses anos de pandemia vire e mexe pensava no assunto. Um dia resolvi molhar as palavras em um bar com uns amigos na quebrada, daqueles que jogam sinuca, tomam uma dose e discutem sobre política. Perguntei a eles: o que é felicidade para vocês? Surgiram coisas como “a felicidade é a ausência de problemas e dor”, “Isso de felicidade não existe”, “a felicidade é prazer.” Todas pareciam fazer sentido naquele momento quando ouvi.  

 

É provável que em uma crise como a que passamos, inclusive econômica, ser infeliz seja o natural. A minha felicidade dependia naquele instante do coletivo, da consciência social geral das pessoas. É bem verdade que se o esgoto que passa na viela fosse canalizado seria menos infeliz. O Estado por vezes não provê felicidade necessária. Na verdade autoriza a busca, e mesmo que minhas escolhas sejam ruins ninguém deveria te incomodar nessa jornada. 

 

A ciência evidencia que a felicidade é uma sensação de prazer que irradia pelo corpo. Imagine você achando 100 reais na rua hoje, seu time do coração sendo campeão mundial, irá receber um aumento de salário atraente amanhã. A sensação é a felicidade, isso que buscamos: as sensações. E é provável que a tecnologia em algum momento futuro vai criar um remédio que ofereça essas sensações equilibradas. A ciência acredita que a bioquímica é o segredo da felicidade e não dos acontecimentos.

 

A felicidade sempre esteve em discussões por muitos pensadores ao longo da história. Para alguns a felicidade não existe, apenas é a eterna busca por sensações e quando ás têm já não serão mais as mesmas. Para outros a felicidade é um acontecimento marcado e marcante, quando ela existe o prazer está presente e é só isso que sinto, penso que para que isso ocorra em algum momento da vida devo ter experimentado a dor. A dúvida que fica dos pontos de vista abordados do pouco que consigo explicar sobre o tema é: Caro, leitor, você gostaria de ser feliz para sempre? 

  

Gideão Idelfonso

Cria de Paraisópolis, bacharel em Lazer e Turismo pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Pesquisador com foco na periferia e sua dialética com o Lazer e Turismo. Teve contato com projetos de impacto social em Paraisópolis e em áreas da Zona Leste.