A importância dos parques urbanos e suas contradições

Foto Patrick Gruban

Quando criança frequentava um parque na capital Paulista chamado Ibirapuera com primos e família. Era domingo de piquenique com bacias cheias de comidas fresquinhas, doces, salgados, farofa e bebidas. Era um domingo de diversão sem igual, gargalhadas, fofocas, brigas, abraços, golaços e muito suor.


O ar era diferente do da favela, me propondo a olhar como uma criança: um portal para as árvores, vegetação, oxigênio e umidade. Adulto, passei a ter uma relação diferente com o parque citado, era uma fuga, da raiva, do cotidiano e da mesmice. Era cerca de 1h da favela onde morava, Paraisópolis, de transporte público. 

 

Os parques urbanos em sua grande maioria procuram conciliar áreas verdes com equipamentos ou ambientes que propiciem o lazer. No caso das periferias, salvo algumas exceções, não possuem esses dois pilares juntos como uma forma de valorizar o espaço urbano. Um tema importante pela onda de privatizações que vem ocorrendo nos últimos anos nesse setor, há quem defenda que os parques nacionais são considerados um bem comum e não deveriam cobrar taxas de entradas, por exemplo. 


Assim, nessa ideia os parques que se tornam mercadoria passam a desestimular a ida não só da periferia para esses locais. Nessa perspectiva se não houver um contato da população com os parques urbanos a natureza continuará sendo sem importância para a sociedade como um todo.


É bem verdade que a disposição de governos em reduzir gastos públicos, em um cenário de recursos escassos, acabam favorecendo essas privatizações. Nesse cenário, o governo não consegue administrar e gerir os parques urbanos de forma adequada, concedendo a posse para a sociedade civil em forma de agentes empresariais junto a contratos milionários.


No caso dos parques paulistas Villa-Lobos, Cândido Portinari e Água Branca concedidos recentemente, somam-se 62 milhões de reais por um contrato de 30 anos. A promessa da concessionária será novos serviços, atrações, comodidades e preservação, mesmo que isso encareça os produtos ofertados.


Nesse cenário contraditório geral existe espaço para a criação de parques urbanos nas periferias. A sensação de proximidade dos ambientes contribuem para a cidadania, um lugar para relaxar, com eventos culturais entre outras opções, desde que a comunidade esteja inserida no processo de criação das atividades.


O processo é lento, e parece que nas periferias intervenções urbanas ou sua aceleração ocorrem após tragédias midiáticas. O engajamento para essas ações partem espontaneamente das organizações civis das favelas, tendo o apoio do poder público incerto. Esses novos ambientes de coesão social podem ser um organizador da comunidade, um instrumento de mudança, gerando novos valores. 


As grandes cidades evidenciam pessoas que buscam por áreas de tranquilidade e prazer, os parques, praças, são bons instrumentos para essa busca de contato com a natureza como uma necessidade. E isso se confirma quando parques nacionais recebem milhões de pessoas por ano. Os parques e a favela tem tudo a ver, basta saber fazer. 

 

Gideão Idelfonso

Cria de Paraisópolis, bacharel em Lazer e Turismo pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. Pesquisador com foco na periferia e sua dialética com o Lazer e Turismo. Teve contato com projetos de impacto social em Paraisópolis e em áreas da Zona Leste.