A disputa pela nossa atenção

Por Adriana Teixeira

 

Há três meses, iniciamos nossa pesquisa de campo em Paraisópolis. Desde novembro do ano passado, entrevistamos moradores do bairro sobre o espalhamento e a força de convencimento das fake news durante o período da pandemia de covid-19. Nosso objetivo é coletar dados para compreender como a comunidade enfrentou a desinformação na tomada de decisões imprescindíveis para a preservação da vida de seus habitantes. Formamos um grupo de pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) com alunos dos cursos de graduação de Multimeios, Gabriela Pedreira e William Moussa, da graduação de Psicologia, Júlia Piquet e Lucas Rubini, e coordenação do professor Rogério da Costa, da pós-graduação em Comunicação e Semiótica. A investigação é parte da minha pesquisa de doutorado, que teve início no mestrado – com a leitura das fake news durante a vacinação contra a febre amarela.  

 

Por que elegemos Paraisópolis para nosso objeto de estudo? Atraiu a atenção dos pesquisadores o sistema de organização da comunidade para o enfrentamento do contágio pelo coronavírus, especialmente a constituição de importante linha de frente composta por moradores que assumiram cargos de “presidentes de rua” e desempenharam tarefas fundamentais para o monitoramento da saúde de seus vizinhos. Entendemos que a preservação da vida, no contexto da pandemia, exigiu de Paraisópolis a adoção de comunicação assertiva e de meios específicos para resistir à desinformação sobre a covid-19. 

 

O levantamento das informações em Paraisópolis ainda está no início, mas já nos deparamos com reflexões instigantes sobre as causas e consequências da disseminação de fake news nas redes digitais (e fora delas). Durante entrevista sobre a força de convencimento das notícias falsas, um jovem morador demonstrou preocupação com a incômoda sensação de aceleração do tempo, aparentemente provocada pelas plataformas digitais e pelos aplicativos de troca de mensagens. A explanação do entrevistado foi exemplificada com o recurso do WhatsApp, que permite acelerar a velocidade de execução do áudio. Igualmente, o recurso está disponível para vídeos e podcasts. Na opinião dele, o mecanismo de funcionamento destas plataformas está baseado na velocidade: enquanto interagimos com as redes de socialização, somos frequentemente convocados a circular, imediatamente, por vários lugares de desinformação. Esta rapidez com que tudo se passa diante dos nossos olhos nos torna consumidores distraídos de fake news. Não há pausa para o questionamento. 

 

Nossa atenção é constantemente disputada durante a imersão em ambiente digital. As interações e o comportamento do indivíduo nas plataformas (Facebook, Instagram, Twitter, YouTube, Spotify e Google, entre outros) atendem, na maioria dos casos, a interesses econômicos. Curtidas, comentários, compartilhamentos de conteúdo, inscrições em canais, participação de grupos valem ouro. O sistema não é estático e depende de nós, além dos robôs, para se manter em funcionamento e gerar lucros para as empresas de tecnologia. Desta engrenagem participam, ativamente as fake news, geradas também com interesses econômicos. Elas ocupam simultaneamente várias plataformas, sob diversos formatos (imagem, áudio, vídeo e texto), fazendo uso da possibilidade de articulação e integração entre as redes digitais. Mensagem falsa no WhatsApp, por exemplo, pode levar o indivíduo a acessar link que o direcionará para vídeo, igualmente falso, no YouTube ou no Facebook. Neste ambiente, o sistema de recomendação da plataforma, controlado por tecnologia de inteligência artificial, pode, facilmente, aprisionar o indivíduo numa série de vídeos igualmente falsos ou enganosos, com grande oferta de publicidade. 

 

Somos controlados para permanecer o maior tempo possível on-line. Enquanto navegamos na internet, as empresas captam e armazenam informações valiosas sobre nosso comportamento. Sistemas mais complexos têm a capacidade de fazer a leitura das nossas emoções, diante de determinados temas, quando interagimos com grupos. Este recurso permite identificar, com mais detalhamento, determinados perfis. A quantidade de dados captados e combinados possibilita aos gigantes digitais recomendar conteúdos e publicidade cada vez mais alinhados com nossa preferência e expectativa. A desinformação segue exatamente o mesmo percurso. É preciso quebrar este círculo vicioso. 

 

Foto: Reprodução

Adriana Teixeira

É jornalista, pesquisadora, doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Atuou como repórter e editora, por 20 anos, nos jornais Diário Popular, Diário de S.Paulo e Brasil Econômico. Também realiza palestras sobre seu principal objeto de pesquisa: desinformação científica.