Como a alta do combustível afeta a renda dos motoristas de aplicativo

Motoristas afirmam ser inviável arcar com os custos do combustível e ter que trabalhar mais horas para não reduzir tanto a renda no final do mês

Por Talytha Cardoso

Há alguns anos, não se poderia imaginar ter a facilidade de pegar um carro particular com preços acessíveis nas corridas e ainda poder dividir com alguém e compartilhar a mesma corrida de forma remota com qualquer pessoa do outro lado da cidade ou do bairro, uma verdadeira facilidade na palma da mão. 

E foi com essa ideia que nasceu, na França, a Uber em 2009, sendo a primeira empresa de transporte de carros particulares com preços acessíveis e já calculados antes do passageiro embarcar rumo ao destino já selecionado direto do aplicativo, desbancando os motoristas de praça, conhecidos motoristas de táxi.

Quando o aplicativo chegou ao Brasil, em 2014, atuando primeiro na cidade do Rio de Janeiro e logo em seguida em São Paulo, abriu-se a oportunidade de gerar emprego e renda, uma vez que o aplicativo usa o carro particular dos motoristas mediante cadastro na plataforma para atender seus milhares de clientes. Hoje, está presente em mais de 600 cidades, são mais de 3 milhões de motoristas parceiros, que atendem 75 milhões de usuários e realizam 15 milhões de corridas por dia

O serviço de Uber foi para muitos uma fonte de renda e complemento. Muitos motoristas viram neste trabalho a oportunidade de aumentar a renda familiar e até fazer disso uma profissão. Leandro Oliveira trabalhou nos últimos seis meses como motorista de aplicativo para completar as horas vagas que tinha disponível pelo horário da manhã e à tarde. Ele já trabalhava em outra empresa e atendia seus clientes na parte da noite, por isso, viu na Uber a oportunidade de aumentar a renda e aproveitar melhor o tempo ocioso. 

Mas segundo ele, é preciso criar um plano de trabalho para poder tirar um bom faturamento no final do mês, já que a alta do combustível acaba por virar um vilão para o bolso dos motoristas de aplicativo. Recentemente, saiu da plataforma para dar continuidade em um outro trabalho que ficou bem mais viável, em vista da renda ter diminuído devido a alta do combustível.

Essa luta diária de manter os custos do veículo e equilibrar as despesas da casa obriga, na maioria das vezes, os motoristas a trabalharem longas horas, a exemplo da Shirlene Araújo, que aos 29 anos sabe bem como é a rotina de dirigir por longos períodos do dia. Sommelier de Cerveja, formada pelo Instituto da Cervejas e tendo dois cursos de graduação incompletos, tem focado 12h horas por dia nos cinco dias da semana para organizar as contas, pagar a mensalidade do carro alugado e poder deixar as despesas em dia. “Nos últimos dois meses vem ficando cada vez mais difícil dirigir como motorista de aplicativo tanto por conta do aumento dos combustíveis quanto do aluguel do carro”, conta ela.

Com os últimos aumentos no combustível, ficou inviável para muitos dos motoristas usarem seus carros e até carros alugados para trabalhar, já que as corridas ficaram mais altas. Além do período da COVID-19, que impossibilitou as corridas serem realizadas com a mesma normalidade, sendo necessárias implantações de novas medidas restritivas seguindo os protocolos sanitários nos veículos cadastrados.

ALTA DOS COMBUSTÍVEIS

Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP), o litro da gasolina subiu 19,8%. Dados do IBGE indicaram um aumento ainda maior, de 31,09%. Dentro desses cálculos de aumentos nos combustíveis, estão incluídos gás de cozinha (GLP) com aumento de 23,8% e, de janeiro a agosto, o diesel, combustível usado para abastecimento dos caminhões com alta de 24%. 

Para entender melhor o valor do combustível, é necessário entender que o barril de Petróleo, matéria prima para gerar os derivados do combustível, é cotado em dólar. Até o fechamento do jornal, o barril estava U$83,65. Ou seja, quando o dólar sobe, o petróleo segue esse aumento, ficando refém da moeda estrangeira. 

Mas dentro desse aumento que é cotado em moeda estrangeira, o ICMS (Imposto Circular sobre Mercadorias e Serviços), e outros tributos federais como Cofins, Pis/Pasep e Cide, consomem uma boa fatia do valor, o que faz com que o preço final chegue nas bombas dos postos de combustível com valores lá em cima.