Por trás da foto

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Corpo de PC Farias no IML de Maceió. A foto ganhou destaque nacional na capa da Folha de S. Paulo em junho de 1996

*Por Juca Varella

Muitas fotos jornalísticas que ganharam destaque têm uma história interessante de bastidor. Essa foto do corpo de Paulo Cesar Farias, um dos protagonistas do impeachment do presidente Collor em 1992, é um bom exemplo. PC e sua namorada Suzana Marcolino foram encontrados mortos a tiros em junho de 1996 em uma casa de praia no litoral norte de Maceió, estado de Alagoas. Tesoureiro da campanha de Collor de Mello, PC já havia sido preso por administrar milhões em um esquema de corrupção que abalou o país e derrubou o então presidente.

A história dessa foto começa em Brasília. Era um domingo e eu estava de folga. Fui chamado às pressas para a redação porque, em duas horas, haveria um jatinho para levar a mim e o repórter Lucas Figueiredo até Maceió. Não havia voo comercial que chegasse a tempo para produzirmos matéria sobre os assassinatos para a edição do dia seguinte da Folha de S. Paulo, jornal onde trabalhávamos.

Arrumei uma pequena mala, equipamento, transmissora de fotos e laboratório -naquele época usávamos filme e a revelação era feita no banheiro do hotel – e fomos para o aeroporto. O jornal pagou uma fortuna por aquele fretamento. Era um jatinho para 12 passageiros e que só levava a mim e ao Lucas. No caminho perguntávamos como é que iríamos pagar aquele enorme investimento do jornal.

Chegamos em Maceió às 19:30 e fomos direto ao IML, onde os corpos estavam. Jornalistas e curiosos se amontoavam na entrada do prédio. A cidade havia parado diante daqueles crimes. E o país também. E eu estava lá, à procura de uma foto que parecia impossível de se conseguir. Até aquele momento nenhum fotógrafo havia feito foto alguma dos corpos, nem na casa e nem em qualquer outro lugar. O tempo passava e aquela espera sufocava. O horário de fechamento do jornal estava chegando e eu não tinha feito nenhuma imagem que prestasse.

Foi quando tive a intuição de sair daquele tumulto na porta do IML onde seria impossível de se conseguir uma boa imagem. Resolvi me desgarrar e dar a volta em torno do antigo prédio onde estavam os corpos e tentar alguma coisa. Entrei em um terreno vazio ao lado e caminhei na escuridão em uma busca que eu não sabia direito o que era. O silêncio contrastava com o tumulto que os jornalistas faziam há algumas dezenas de metros dali. Fui caminhando e cheguei aos fundos do IML. Era um casarão antigo, rodeado por janelões com grades de ferro enferrujadas. Eu caminhava no vazio.

De repente notei algo estranho que me chamou a atenção. Duas das três janelas na parede dos fundos estavam encapadas com um plástico preto, como que querendo esconder algo. Me aproximei devagar e percebi que pessoas conversavam do lado de dentro. Eram muitas vozes. Subi em uma saliência da parede, olhei por uma fresta e quase caí com o susto.

A poucos metros, sobre uma mesa de necropsia, lá estava o corpo do homem que protagonizou um dos maiores escândalos de corrupção que o Brasil já teve: PC Farias.

Meio trêmulo regulei a câmera, fiz o foco e comecei a disparar. Vi e fotografei um dos auxiliares de necropsia limpando o buraco da bala no peito do cadáver. Nesse momento apareceu um outro fotógrafo e me derrubou da janela, tentando fazer a mesma foto. Fizemos um barulhão que alertou o pessoal que estava dentro da sala. Chamaram a PM para nos expulsar dali.

Corri para o hotel com o laboratório em uma mão e a transmissora na outra. Às 21:00 horas a foto já estava na redação aqui em São Paulo. Haviam atrasado o fechamento para esperar a foto. Até o dono do jornal estava na fotografia aguardando a chegada da tão esperada imagem exclusiva. No dia seguinte só a Folha tinha a foto, que foi premiada e pagou o jatinho.

Assista ao vídeo

Juca Varella é fotógrafo independente e colaborador da Folha de São Paulo
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Autor

Francisca Rodrigues é jornalista, repórter do jornal Espaço do Povo, apresentadora do programa Meia Prosa (Rádio Nova Paraisópolis, 87.5FM) e assessora de comunicação do Luau Paraisópolis.

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