O Massacre de Eldorado dos Carajás

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Em Curionópolis, velório dos 19 sem-terra assassinados pela PM do Pará.

Em Curionópolis, velório dos 19 sem-terra assassinados pela PM do Pará.

Em abril de 1996, dezenove sem-terra que bloqueavam a rodovia que liga Carajás a Marabá, no leste do Pará, foram brutalmente assassinados pela Polícia Militar com rajadas de metralhadoras

*Por Juca Varella

A história da cobertura que fiz do Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, foi pontuada por momentos de angústia e revolta. Uma das fotos que marcaram aquele episódio foi feita no cemitério de Curionópolis, onde foram sepultados os sem-terra mortos.

            No mesmo dia do massacre, 17 de abril de 1996, a Folha de S. Paulo fretou um avião bimotor para que levasse uma equipe de Brasília, onde eu morava, até o local do massacre. Pousamos em Carajás, alugamos um carro e fomos diretamente à curva do ‘S’ da rodovia PA-150. Chegando lá os corpos já haviam sido levados para o IML de Marabá. No local ainda estavam muitos trabalhadores sem-terra que haviam escapado das rajadas de metralhadoras da PM, familiares dos mortos e dos mais de 70 feridos. Pelo chão restavam as marcas que davam a dimensão da tragédia. Muito sangue e choro.

            Uma cena horrível me chamou a atenção logo que cheguei ao local.  Numa vala na beira da estrada percebi alguns cães comendo algo. Cheguei mais perto e vi a macabra refeição. Estavam devorando parte de um cérebro humano.  Muitos dos sem-terra mortos haviam sido executados friamente com tiros na cabeça, à queima roupa.

            Naquele dia a notícia principal estava no IML de Marabá, que ficava a quase 200 km do local das mortes, e onde havia uma outra equipe da Folha de S. Paulo. As equipes de reportagem que permaneciam no local do massacre aguardavam o retorno dos corpos para que fossem sepultados em Curionópolis, cidade que ficava próxima ao Acampamento Macaxeira, de onde a marcha daqueles sem-terra havia saído dias atrás.

            No dia seguinte ao massacre ainda continuávamos na beira da estrada aguardando a passagem do caminhão que traria os corpos. Ali não havia mais fotos a serem feitas. Por isso aquela espera me causava angústia. As horas foram passando e nada acontecia.

            Foi quando meus pensamentos se voltaram para o local do sepultamento daquelas pessoas. Se haviam 19 mortos em algum lugar estavam cavando 19 sepulturas. Na certa seria uma imagem forte e que representaria o tamanho da tragédia.  Pesquisei e descobri que o sepultamento seria em Curionópolis. Falei com o repórter que iria atrás dessa foto e só eu, dos muitos jornalistas que aguardavam no local, abandonei a curva do ‘S’ atrás do meu palpite.  Corria o risco de perder a passagem do caminhão com os corpos, mas mesmo assim decidi ir. E dirigi por mais de 60 km por estrada de terra até chegar ao cemitério de Curionópolis.

            Meu faro não me enganou. Vários homens, num sobe-e-desce de enxadas e picaretas,cavavam freneticamente as sepulturas das vítimas daquele massacre.   Arrumei uma escada e fiz várias fotos ‘aéreas’ mostrando a triste tarefa daquele pessoal. Enquanto fazia as fotos contei 22 covas pelo visor da câmera. Será que aumentou o número de mortos? Perguntei a mim mesmo. E fui conferir com o coveiro.   “Sim meu senhor, estamos abrindo 22 covas”, ele respondeu.   “Mas não são 19 mortos?”perguntei.    E ele justificou: “Sim, são 19, mas nesses casos é melhor sobrar do que faltar, né?”.

            Com uma boa foto nas mãos e uma frase ainda melhor do coveiro, corri para um ‘orelhão’, liguei para o jornal e narrei aquela história. Depois voltei às pressas para o hotel e, no banheiro, revelei e transmiti duas fotos para a redação. No dia seguinte a foto e a marcante frase do coveiro ganharam destaque na edição.

            Além de bons olhos o repórter-fotográfico precisa ter bons ouvidos!

*Juca Varella é fotógrafo independente e colaborador da Folha de S. Paulo – www.jucavarella.com.br 

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