Gideão Idelfonso | O Turismo de Realidade na Favela de Paraisópolis

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Há relatos que remontam a visitação em favelas no Brasil desde 1940. As pioneiras nesse segmento de “Turismo de Realidade” encontram-se no Rio de Janeiro: Rocinha, Vidigal, Santa Marta e Complexo do Alemão, em que recebiam visitantes, ainda hoje recebem gringos na laje diariamente. A Paraisópolis ficou forte nesse segmento por volta de 2013, mas existem comprovações que a Casa de Pedra do Estevão e o Ateliê do Berbela recebiam visitantes e turistas desde 2001. O guiamento local prioriza atrativos culturais e de Artes produzidos pelos próprios moradores.  A ideia é tornar uma experiência real que possibilite um contraponto a visão limitada, que ainda observa-se sobre a comunidade e seus residentes no imaginário popular.

A favela tornou-se historicamente midiática, pela sua ligação íntima a construção do Bairro do Morumbi. A relação entre os dois locais são históricas, visto que o Estádio Cícero Pompeu de Toledo (o Morumbi) e  o hospital Albert Einstein, entre tantos outros patrimônios da região, tiveram mão-de-obra fundamental de muitos moradores antigos da comunidade. Esta ligação íntima, faz com que a imagem do morador da Favela perante a sociedade se torne distorcida, visto que existe uma desigualdade econômica e estrutural acentuada entre os dois locais. A Paraisópolis ficou ainda mais conhecida nesses últimos anos, devido aos seus bailes funks que costumam atrair não estrangeiros, mas diversos indivíduos de outras cidades e pontos diferentes da grande São Paulo que, ao fugir da pressão social para se tornarem mão de obra, buscam um momento de lazer e felicidade.

O turismo ou a visitação além de possibilitar renda aos artistas e rotatividade econômica aos comércios, visto que o dinheiro entra por meio do consumo de produtos e objetos na localidade, tem um sentido de mudança de imagem por meio do encontro e observação. O “barato” deste segmento, talvez, esteja expresso nessa reflexão. A saída do seu lugar de origem, seu conforto familiar, a um destino diferente do habitual, faz com que por meio  da observação do local o turista/visitante possa negociar com suas próprias convicções e falsas consciências acerca dos aspectos sociais existentes. O verdadeiro descobrimento não consiste diretamente em procurar novas paisagens, e sim em ter novos olhos.   

O dilema do Turismo em Favelas se revela, não é errado visitar o cotidiano das favelas, mas deve ser organizado e pensado pela própria favela e de forma menos predatória possível. A forma exagerada de invasão na privacidade dos residentes deve ser abolida, moradores não são bichos para ficarem tirando fotos deles. A Rocinha ficou bem emblemática nesse quesito, e além os “Jeep Tours” ou carros blindados, percorriam ruas fazendo menção a um Safári. Essa forma vem sendo muito criticada e por si só mostra-se uma exploração exagerada e excessivamente opressiva. O produto turístico não deve ser destinado a uma agência qualquer que reafirma estereótipos da favela, a questão é somar não dividir.

A Associação dos Moradores e Comércio de Paraisópolis tem uma forma mais próxima do ideal ao contrário das práticas que ocorreram em algumas favelas do Rio de Janeiro, por muito tempo. A ideia aqui é mostrar o que tem de impactante e importante: Arte, cultura, arquitetura local, urbanização, aspectos que geram reflexão, sentidos e mudanças de enganos das ilusões existentes. O turismo tem um papel educacional e de oposição ao profano, em que o turista busca uma experiência autêntica, distante da alienação do dia a dia da sociedade capitalista. As motivações da vinda dos turistas são muito mais complexas e não podem ser reduzidas a procura do prazer ou de aventura. Viva o Turismo e o Lazer, viva Paraisópolis.

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Autor

Gideão Idelfonso Nascido em Paraisópolis, é estudante do 4º ano de Lazer e Turismo na Escola de Artes Ciências e Humanidades - USP. Foi guia de diversos grupos em Paraisópolis, espanhóis e alunos e professores da USP, sempre com a perspectiva de análise dos impactos socieconômicos do Lazer e Turismo na comunidade.

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