Evelin Coutinho|O valor da espera no desenvolvimento infantil

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Tudo tem o seu tempo. Será que as nossas crianças compreendem isso?

-Mãe, pai,tá chegando? 

-Espera mais um pouco.

-Não quero esperar

-Eu quero o sorvete agora!

-Espera…

-Não, quero agora! 

Quantos já não se depararam com frases assim? Causando aquele drama familiar, em: A dificuldade dos pequenos em lidar com a espera.

A criança vive o hoje!

A noção do tempo não vem pronta na mente humana, mas é construída a partir dele mesmo – o tempo.

Por isso, aparentemente, em alguns momentos é tão difícil a criança entender ideias como: filho, espera, já estamos chegando/aguenta só mais dois minutinhos…

Isto ocorre porque o que ela dispõe é o agora, o que é visível e concreto; o passado e futuro estão em um plano abstrato, somente conforme o crescimento e amadurecimento da percepção vai sendo possível introduzir o pensamento de que existe um antes, um agora e um depois.

Faz necessário paciência por parte dos cuidadores e o uso de algumas estratégias para que este aprendizado seja espontâneo e prazeroso.

No entanto, não é de surpreender que muitas crianças têm uma relação ainda mais trabalhosa com a espera.  Há choros, angústias, raiva, ira, até a automutilação em casos mais extremos (Se mordem, se batem, se arranham…) manifestando o seu descontentamento por não serem correspondidas de imediato.

Com este fenômeno observa -se a dificuldade em lidar com o futuro, desenvolvendo em muitas situações a ansiedade infantil.

É notório que a ansiedade não tem idade marcada no ciclo vital, e acomete os nossos pequenos desde a primeira infância. A ansiedade é a preocupação excessiva, medo, desconforto emocional que se manifesta no físico (tremor, coração disparado, sudorese, náuseas). Momentos de ansiedade podem acometer as crianças diante de diversas situações temerosas (primeiros dias de aula, mudanças…) e estas reações não podem ser desprezadas, mas acolhidas, pois quando ignoradas podem se proliferar, desencadeando um modo de ser, de se posicionar perante a existência, em suma:  tornando uma personalidade ansiosa.

Muitas perturbações de ansiedade, quando ignoradas na infância, persistem na vida adulta, aumentando a probabilidade de desenvolverem outro tipo de patologias; bloqueios, pensamentos negativos quanto a si, suas habilidades e como consequência o complexo de inferioridade. 

Os pais, e cuidadores, podem e muito colaborar para a saúde emocional dos seus pequenos, quando trabalham em conjunto a compreensão de tempo.

É importante lembrar que crianças desta nova geração estão emergidas na tecnologia, onde com um clique chega-se onde deseja, não há mais a necessidade da espera do horário para o desenho preferido, basta acessar a internet sendo possível assistir no horário em que desejar, tudo está disponível e não longe de seu alcance. Outro fator é a crescente cobrança social para Ser alguém (Como se já não o fosse); crianças que têm a agenda de atividades mais comprometidas do que de muitos adultos, mas não tem tempo para aprender sobre o próprio: o tempo…

Por isso, é importante refletir:

1.Como eu lido com o tempo? Sou ansioso(a) ?

Pais ansiosos podem transferir e gerar pensamentos ansiosos nos seus filhos.

2. Excesso de estímulos (Não há quietude, e não ha ócio saudável/ criativo)

3.Cobranças (de uma performance sempre superior, comparações)

4.Negligência/ abandono tecnológico (crianças expostas a televisão, tablet, celular por horas).

Teríamos uma lista interminável, mas o importante é pensar onde  e como nós, pais e cuidadores, estamos falhando.

É preciso ser flexível com as crianças, dar espaço para a escuta e diálogo, conhecer seus pensamentos, sendo este um caminho para conhecer os sentimentos e assim produzir alívio e segurança. Ao estabelecer limites, firmeza nas ações, e jamais privá-las do afeto, do gesto, do olhar, estaremos ensinamos que o futuro não é inimigo, futuro é possibilidade de melhorias e realizações

É preciso ensiná-los a sentir a ESPERA. Saber que ela não será angustiante quando ressignificada, no sentindo de que faz parte da jornada da vida e que são pausas de autoconhecimento e aprendizagem. 

Se o agora é um PRESENTE, a ESPERA é o laço que ao desatar nos ensina a contemplar a beleza da Vida.

Viva a espera, e acredite: ela caminha no tempo!

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Autor

Mãe, psicóloga clínica, professora de teologia, psicoteologia e amiga que preza por um viver com contentamento. Apaixonada pela essência da vida, tem se dedicado na compreensão dos sentimentos e comportamentos que compõem as relações humanas, com objetivo de colaborar no processo de crescimento emocional e num desenvolvimento saudável do convívio social.

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