Evelin Coutinho | Amor, Valor e amparo

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Neste mês de outubro, quem se arriscou a entrar especificamente no dia 12 em um shopping ou em uma loja de brinquedos, se deparou com um cenário dispondo de uma alta reflexão: crianças, pais, avós, tios e tias, na correria contra o tempo para levar para casa o brinquedo do momento (que diga-se de passagem mal cabem na palma da mão), valendo nada menos que duas notas de onça pintada.

Praças de alimentação lotadas, crianças conversando, gritando, sorrindo, pulando e adultos convencidos de que tudo vale a pena pelo sorriso do pequeno (ainda que isso custe o cartão de crédito comprometido). Provando o que as estatísticas notificam, que a cada ano a indústria de brinquedos é surpreendida com um ótimo faturamento.

Por outro lado, a cada ano também é noticiado o resultado de pesquisas expondo o crescente e alarmante número de crianças vítimas de atos de violência: abuso sexual, estupro, agressões física e psicológica, que em larga escala – o agressor/abusador – é residente do mesmo teto, ou pessoas consideradas de confiança pela família.

Faz-se necessário então pontuar: Será que além das diversas atrações apresentadas as crianças, além dos milhares de brinquedos que afloram a imaginação, da disposição do lanche predileto, estariam estas crianças de fato sendo amadas, amparadas e valorizadas?

Neste mês de comemoração do dia das crianças gostaria de lembrá-los do direito pertinente a toda natureza humana, que é desfrutar de cada ciclo da vida com segurança e o máximo de satisfação, dentre eles a infância, fase esta que não depende apenas do sujeito, mas sim de responsáveis que lhes afirme cuidados essenciais relacionados ao existir.

Nascemos com necessidades fisiológicas e emocionais, que quando satisfeitas promovem integração, de SER alguém no mundo, ou seja, uma identidade de pertencimento. A sociedade teoricamente entende isso por tanto em termos de estatuto, existem leis bem claras:

Segundo o Estatuto da criança e do adolescente (ECA)

“É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”

Se gozamos vida física é porque alguém nos proveu alimento, saciou nossa sede (quando ainda mal podíamos descrever o que sentíamos, a não ser pelo dispositivo instintivo que é o choro). Da mesma intensidade (ainda que não seja tão reconhecido) nascemos com a necessidade de suprimento emocional de amor, amparo, valor e aceitação para um desenvolvimento emocional saudável.

A criança logo nos primeiros momentos de vida precisa de um cuidador com o qual se identifique, que formule o apego, que habitualmente esta ligada a figura materna/paterna; a criança os reconhece pelo cheiro, gesto, olhar, é como uma extensão de si, que amadurecido com o tempo promove a confiança necessária para as próximas etapas da vida.

Tanto a mãe, como pai e cuidadores, quando conscientes destas necessidades humanas, podem cooperar para que este indivíduo cresça confiante para construir, evoluir e diante dos desafios, conflitos e percas encontre em si forças para suportá-las e resiliência para superá-las.

O oposto disso é um indivíduo enfraquecido, inseguro, vulnerável, com tendências a transtornos psicológicos provenientes de faltas ainda nos primeiros anos de vida.

O sentimento de amor é internalizado no cuidado, no trato, na atenção. Todas as vezes que a criança não é ignorada, mas é atribuído significado a sua fala e a suas percepções, ela sente que é reconhecida, respeitada e logo compreende que é importante.

Que neste mês das crianças o brinquedo em forma de presente seja um simbolismo de uma ação que traz consigo todo respeito a infância, fase esta que é sim sinônimo de inocência, fantasia e sonhos, sendo um ensaio da vida adulta, portanto preservá-la é também honrar a criança que um dia fomos. Viver constitui-se na interdependência um dos outros, a fim de que sejamos HUMANOS.

Se você sabe de atos de violência contra a criança:NÃO EXITE, DENUNCIE!

SER CRIANÇA É SER HUMANO, SER HUMANO É TER EM SUA ESSÊNCIA A REVERÊNCIA PELA INFÂNCIA. 

NOTAS:
*De acordo com um boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, houve um aumento de 83% nas notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes. Os dados anunciados apontam que do total de 184.524 casos, 31,5% são contra crianças e 45% contra adolescentes.

(. https://bebe.abril.com.br/familia/violencia-sexual-contra-criancas-aumenta-no-brasil/)29 de junho 2018

*Em 2016, o sistema de saúde registrou 22,9 mil atendimentos a vítimas de estupro no Brasil. Em mais de 13 mil deles – 57% dos casos – as vítimas tinham entre 0 e 14 anos. Dessas, cerca de 6 mil vítimas tinham menos de 9 anos.

(https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43010109.)21 de fev de 2018.

Sinais de que a criança pode estar sendo vítima de violência: mudança repentina de comportamento/ rigidez/ muito quieta/ constantes pesadelos/ enurese noturna/ uso de roupas inadequadas para o clima (ex:blusa de frio no calor)/ se sentir incomodada na presença de determinada pessoa/brincadeiras sexuais persistentes, exageradas e inadequadas/ extremamente submissas ou agressivas/  Crianças com imensos sentimentos de culpa em relação a tudo.

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Autor

Mãe, psicóloga clínica, professora de teologia, psicoteologia e amiga que preza por um viver com contentamento. Apaixonada pela essência da vida, tem se dedicado na compreensão dos sentimentos e comportamentos que compõem as relações humanas, com objetivo de colaborar no processo de crescimento emocional e num desenvolvimento saudável do convívio social.

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