Eduardo de Oliveira: o grande poeta da negritude

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Por Keli Gois / Jornal Espaço do Povo 33

Garra, persistência e muita luta marcaram a vida de Eduardo de Oliveira, o grande poeta negro de nosso país, que dedicou sua vida na luta pela igualdade racial

foto professorGenerosidade, bondade, sabedoria, ternura, luta e talento poético, assim podemos definir Eduardo de Oliveira, “Professor Eduardo”, como era chamado. Um menino negro adotado por uma família de brancos, que sempre lutou pela igualdade racial, realidade que ele viveu na própria família, que o acolheu com muito amor, carinho e respeito, proporcionando-lhe a oportunidade de tornar-se um dos maiores ícones na luta pela igualdade racial no Brasil.

Nascido em 06 de agosto de 1926, professor Eduardo desempenhou importante papel na luta pela igualdade entre as raças. Ao longo de sua vida publicou onze livros de poesia, sonetos, trovas, um ensaio, e uma coletânea de biografias.

O poeta teve uma adoção considerada comum para jovens pobres e negros daquela época. Durante o parto, sua mãe faleceu e ele foi dado à madrinha, uma amiga de sua mãe, porém, ela trabalhava muito e ele ficava em casa sozinho. Vendo a situação, seu tutor propôs adotar o menino, e foi isso que ele fez.

Até os oito anos, Eduardo levava o nome de batismo: Eduardo Diamantino Ouro preto Sobre Água. Ao ingressar na escola, seu nome de batismo não foi aceito, ele também não pôde usar o sobrenome da família adotiva. Então, foi batizado como Eduardo Deus deu de Oliveira, e assim ficou conhecido até os 18 anos.

Professor, escritor, defensor dos direitos humanos, militante do movimento negro, jornalista e poeta, onde quer que atuasse, sempre levava a esperança de viver em uma sociedade sem preconceitos. Desde jovem demonstrava essa vontade de lutar pelos direitos de todos os negros. Aos 16 anos escreveu o Hino à Negritude, uma forma contra o racismo, a desigualdade e a intolerância.

Membro ativo do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), Eduardo deixa um grande exemplo de luta e perseverança, foi o primeiro vereador negro da cidade de São Paulo, além de ser fundador do Congresso Nacional Afro Brasileiro (CNAB), onde é conhecido como o “Presidente Eterno”.

Um marido dedicado e um pai exemplar, Eduardo deixou seis filhos, que se orgulham da luta do pai. “Meu pai sempre foi muito carinhoso, compreensivo e preocupado com a formação educacional de seus filhos, mas em função de sua vida atribulada, o dia a dia ficava por conta da minha mãe, Dona Dayse, brava e energética, mas muito compreensiva e carinhosa”, se orgulhou o filho José Francisco, que completou “Dá muito orgulho saber que seu pai, ao exercer o cargo de vereador na câmara Municipal de São Paulo, foi o primeiro negro a falar de si e de seu povo. Isto é fazer verdadeiramente sua história e abrir caminhos para que outros possam trilhar suas pegadas.”

Além de seu exemplo como homem, seu maior legado foi a luta pelo combate às tradições racistas. Não criou apenas o hino, mas também deixou a importância da união e da luta por um mundo melhor. E lutar foi o que Eduardo sempre fez, e isso deixa-nos hoje um grande marco. Este ano a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei que determina que a partir de agora, todo evento voltado aos negros no Brasil toque o Hino à Negritude. Infelizmente, o grande homem que esteve por trás dessa conquista não pôde ver seu sonho de mais de 68 anos tornar-se realidade, mas com certeza, ele deixa uma lição de vida a todos os brasileiros: persistência e perseverança sempre.

Hino à Negritude
Por Eduardo de Oliveira

Sob o céu cor de anil das Américas
Hoje se ergue um soberbo perfil
É uma imagem de luz
Que em verdade traduz
A história do negro no Brasil
Este povo em passadas intrépidas
Entre os povos valentes se impôs
Com a fúria dos leões
Rebentando grilhões
Aos tiranos se contrapôs
Ergue a tocha no alto da glória
Quem, herói, nos combates, se fez
Pois que as páginas da História
São galardões aos negros de altivez

Levantado no topo dos séculos
Mil batalhas viris sustentou
Este povo imortal
Que não encontra rival
Na trilha que o amor lhe destinou
Belo e forte na tez cor de ébano
Só lutando se sente feliz
Brasileiro de escol
Luta de sol a sol
Para o bem de nosso país
Ergue a tocha no alto da glória
Quem, herói, nos combates, se fez
Pois que as páginas da História
São galardões aos negros de altivez

Dos Palmares os feitos históricos
São exemplos da eterna lição
Que no solo Tupi
Nos legara Zumbi
Sonhando com a libertação
Sendo filho também da Mãe-África
Arunda dos deuses da paz
No Brasil, este Axé
Que nos mantém de pé
Vem da força dos Orixás
Ergue a tocha no alto da glória
Quem, herói, nos combates, se fez
Pois que as páginas da História
São galardões aos negros de altivez

Que saibamos guardar estes símbolos
De um passado de heroico labor
Todos numa só voz
Bradam nossos avós
Viver é lutar com destemor
Para frente marchemos impávidos
Que a vitória nos há de sorrir
Cidadãs, cidadãos
Somos todos irmãos
Conquistando o melhor por vir
Ergue a tocha no alto da glória
Quem, herói, nos combates, se fez
Pois que as páginas da História
São galardões aos negros de altivez
(bis)

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Autor

Diretor da Agência Paraisópolis, Editor do Jornal Espaço do Povo, Tesoureiro do Instituto Escola do Povo e da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, Vice-Presidente do Conselho Gestor do CEU Paraisópolis

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