Famílias buscam alternativas para driblar a insegurança alimentar

Desemprego, alta nas contas e nos itens da cesta básica tem colocado diversas famílias do Brasil em situação de vulnerabilidade social


Por Keli Gois


Erica Santana sabe muito bem os impactos na alta do gás de cozinha e também nas contas de água, luz e nos itens da cesta básica. A jovem de apenas 24 anos, que está desempregada há um ano, faz parte das milhares de famílias cadastradas no programa de fornecimento de cestas básicas do G10 Favelas, que tem livrado famílias da situação de fome em comunidades em todo o país. 

Em casa, vivem ela, a mãe, quatro irmãos e o padrasto, que é o único empregado atualmente. Com as contas atrasadas há meses, a alternativa para tentar economizar no gás, por exemplo, foi a compra de um forno elétrico, que é usado para assar alimentos mais demorados. “O gás está muito caro, lá em casa é muita gente, nós somos muitos, então meu padrasto comprou um forno elétrico e também usamos a panela elétrica”, afirma Erica, ao explicar o malabarismo que a família tem que fazer todos os meses para tentar pagar as contas. 

Banhos mais curtos, luzes desligadas e dias alternados para lavar as roupas são alternativas para conseguir economizar e tentar manter as contas em dia. Desempregada há três meses, Sheila Cristina de Souza Neves, 35 anos e mãe de duas crianças, tem retirado marmitas todos os dias no Pavilhão Social do G10 Favelas para conseguir alimentar os filhos e manter a casa. “A última vez que comprei gás foi antes de perder o emprego. Eu pego as marmitas para conseguir dar uma segurada.”, conta ela.

Com o marido também desempregado, Sheila tem tentado economizar como pode. “Lavo roupa uma vez por semana. A gente enche o balde e guarda água para poder manter. O banho é rápido. Eu deixo as luzes apagadas, mas mesmo assim, a luz aumentou bastante.”, afirma. 

A queixa de Sheila e de tantos outros brasileiros é resultado da alta no gás, que atualmente está custando até R$ 130,00 e também por conta da bandeira atual estabelecida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) – Bandeira Escassez Hídrica – que representa a cobrança de R$14,20 a mais para cada 100 quilowatt-hora, um aumento de 6,78%. 

A alta nas contas de luz e gás de cozinha e dos alimentos da cesta básica, somados ao desemprego, tem sido ainda pior para os moradores das comunidades, que enfrentam situação de vulnerabilidade social e veem na doação de marmitas e cestas básicas a única saída para não morrerem de fome. 

É o caso de Marineide de Melo Santos, de 56 anos. Desempregada, ela tenta encontrar alternativas para alimentar os três netos e a filha, que por problemas de saúde não consegue trabalhar. “Eu estou sem gás em casa, minhas contas estão atrasadas há três meses. Eu tento fazer o que posso para conseguir economizar, mas a comida está cara e o dinheiro não dá para tanta coisa”, explica Marineide, que usa o auxílio do bolsa família para comprar comida, pagar contas e o aluguel da casa onde ela, a filha e os três netos vivem.

 

A saída para conseguir sobreviver é contar com o apoio das iniciativas sociais dentro de Paraisópolis, onde ela consegue pegar marmitas todos os dias para tentar livrar os netos da fome. “Eu pego marmita todos os dias, mas elas só dão para o almoço Na janta, eu tenho que dar lanche para todos. Quando eu tenho gás eu faço janta, mas já tem dois meses que estou sem gás”, relata Marineide.

 

Enquanto algumas famílias conseguem se equilibrar para tentar colocar alimento no prato e pagar as contas, outras se veem obrigadas até a vender móveis e eletrodomésticos para conseguir pagar o aluguel e não serem despejadas. É o caso de Marina de Mota Silva, 20 anos. Desempregada e mãe de um bebê de um ano e uma menina de quatro anos, a jovem vive de bicos e tenta equilibrar as contas de casa, aluguel e alimentação com o dinheiro do auxílio emergencial. Com o acúmulo das contas, se viu obrigada a vender a geladeira e o fogão para conseguir garantir o aluguel do mês. “Vendi meu fogão e botijão para poder pagar aluguel e não ficar na rua.” contou a jovem, que pega marmita todos os dias para conseguir garantir a alimentação dos filhos. “Pego marmita aqui para o café da manhã, almoço e janta”, conta ela. 

Essa tem sido a realidade não só dos moradores de Paraisópolis, mas também de outras comunidades do país, que sofrem com a falta de emprego, oportunidades e com a alta nas contas básicas, como conta Zenildo Bispo dos Santos, de 42 anos “Antes da pandemia a minha vida era outra. Eu era motorista registrado, aí teve a redução e eu fiquei desempregado. Eu recebi o auxílio emergencial, mas estou devendo aluguel há dois meses”, explica ele, que não sabe o que fará com o fim do pagamento do auxílio emergencial, anunciado este mês. 

 

A alternativa de Zenildo, Marina, Marineide, Sheila, Erica e tantos outros tem sido contar com o apoio de projetos sociais, como a distribuição de marmitas e cestas básicas, iniciativa do G10 Favelas, que tem tirando inúmeras famílias da situação de insegurança alimentar em mais de 300 comunidades do país.

 

Fotos: Agência Cria Brasil

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